domingo, 13 de setembro de 2015

Aquilo que me falta

Eu às vezes sinto falta do chão. Daqueles bem firmes, que não sacoleje a cada intempérie da vida. Que não balance quando eu pestaneje. Que seja suficientemente resistente para que eu possa fincar meus alicerces.
Sinto falta de luz. De estar tudo às claras, visível, na superfície, bastando que eu estique a ponta de meus dedos para que possa tocar em todos os fatos, sentimentos e sensações.
Sinto falta da brisa, de um vento fresco que traga ares de novidades e que leve consigo ar pesado que me oprime o peito. Um sopro que bagunce os cabelos, o vestido, a mesmice.
Sinto falta de ombros mais fortes que os meus, nos quais eu possa me apoiar e que me ajudem a suportar o peso do mundo. Daqueles em que eu possa subir e olhar o mundo mais adiante.
Sinto falta de colo que me aconchegue e me acolha, onde eu possa simplesmente acomodar minha cabeça e ganhe, de brinde, um cafuné e a sensação de que ali é meu lugar.
Sinto falta de mãos vigorosas nas minhas, que me deem a certeza de que posso fechar os olhos e me deixar ir, confiando que elas sabem exatamente para onde estão me conduzindo. Mãos que cumprimentam, que guiam, que apoiam, que acarinham.
Sinto falta de pés que caminhem comigo, dividindo os estradas, deixando para trás pegadas de uma história e escolhendo, juntos, novas trajetórias. Pés que optem por traçar destinos em comum, percorrer as mesmas veredas.
Sinto falta de olhos que me vejam além do óbvio, além da casca, que compartilhem os horizontes e que sejam cúmplices nos brilhos que causarem uns aos outros.
Eu sinto, apenas, sinto, que mais me falta do que me basta. Que são muitos os buracos. Que as ausências preenchem de forma opressora. Que as fugas apenas tornam mais presente e perene aquilo que aflige. E que chega um momento em que as verdades precisam vir à tona para libertar todo o resto, ainda que o preço a pagar seja alto. Ainda que doa. Ainda que tudo se rasgue, ainda que tudo vire pó. Mesmo aquilo que, em verdade, nunca existiu.

domingo, 26 de julho de 2015

O que nos deixam os avós

Lembro do pão com manteiga e açúcar, dos seus cabelos brancos brancos e das tardes infindáveis lendo os capítulos da novela e assistindo ao programa de Silvio Santos na TV.
Lembro de mim, encarapitada no portão, vendo-o atravessar a rua, e as infinitas maçãs e peras guardadas na gaveta do quarto no hospital,  presentes a cada visita.
Lembro do colo, das canções e do estado de hipnose em que eu ficava quando, devidamente aninhadas na confortável poltrona marrom na salinha, apertava com a ponta de meus dedos a sua veia saltada no rosto, inebriada com o cheiro de cigarro e com os desenhos feitos com a fumaça.
Lembro de um dia chuvoso, a varanda molhada, palavras distantes de uma música surgem na minha lembrança de criança de 04, 05 anos.
Às vezes acho que a minha memória se confunde com as informações colhidas aqui e ali. Preencho os vazios com um pouco de minha imaginação? Faço força para lembrar de fatos impossíveis de serem retomados. Me prendo aos fios de minha memória e, com eles, costuro a teia de minha história, tecendo uma trama ora firme, ora esgarçada, mas que serve para me cobrir nos dias e noites sem alento.
Avós são engraçados. Confundem-se no seu papel e, às vezes, são moles como geleia, mas de vez em quando querem mostrar autoridade (apesar de nem sempre serem muito eficazes nisso).
A mesma avó que me dava pão com manteiga e açúcar me obrigava a tomar sopa. A outra me regalava com as assassinas balas soft, mas me ensinou a comer alface. Um avô nos dava salada de fruta com vinho, mas, quando brigava, não ficava pedra sobre pedra. Do último, o que primeiro perdi, restam apenas algumas imagens e sons embaçados. Pode ser que ele tenha me ajudado a enrolar o spaguetti, limpado a meu queixo sujo de molho ou até cantado para mim. 
O que importa mesmo é que avós são uma bênção. Quem ainda os tem, trate de aproveitar e se munir, o máximo possível, das melhores recordações. São elas que vão ajudar a segurar a onda quando a saudade bater. Porque sim, essa dor virá. E a saudade será insuportável  por um tempo. Até o dia em que reviver as histórias faça surgir, das lágrimas, um sorriso.
E para quem já é avô ou avó, sugiro que faça a sua parte para ser inesquecível. Porque não serão os presentes caros, brinquedos de última geração, passeios no shopping que deixarão uma marca no coração de seus netos,  mas a presença, os ensinamentos, as lições e as experiências que viveram juntos, mesmo aquelas mais simples e aparentemente insignificantes.
A maior herança de um avô ou avô,  mesmo já não estando mais nesse plano, é a capacidade de fazer seu neto ou neta extrair de si os melhores sentimentos e atitudes.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Tá faltando lugar no inferno para tanta boa intenção

Eu não costumo gostar de gente bem intencionada. 
Tenho preguiça quando vejo, a cada dia, uma nova boa ação. Porque boa ação das boas mesmo precisa ser divulgada, de forma ampla e irrestrita, para todo mundo ver.
E são tantas frentes de atuação que me dá até canseira. 
Tá, a pessoa é iluminada, tem a solução para todos os problemas do mundo, resolve de fome a unha encravada, e o que eu tenho a ver com isso?
Detesto quem posa de bom moço - e boa moça. Quem sorri demais, é solícito demais, disponível demais. Ou não é bem assim?
Parece que a virtude no comportamento, pelo visto, só se mantém íntegra sob os holofotes. Quando as luzes se apagam, todos os esforços são engendrados para que elas se acendam novamente, se possíveis ainda mais fortes.
Fazer o bem é apenas um detalhe nessa complexa engenharia. O destinatário das caridades somente usufrui de um efeito colateral. Porque o intuito primeiro é aparecer. Os demais objetivos são uma incógnita. 
Daí vale tudo. Não vou nem listar a quantidade e variedade de iniciativas, porque as pessoas podem se sentir ofendidas de não serem capazes de fazer tanto, com tanta qualidade e em tão pouco tempo. É muita criatividade, muito conhecimento e muita humildade. Saber tudo sobre tudo não é para qualquer um. E demonstrar isso com tanto propriedade então, é tarefa para poucos. Quando a pessoa dedica boa parte de seu tempo para fazer essas ideias acontecerem, aí não tem para ninguém. Vamos nos recolher à nossa insignificância e deixar brilhar quem de fato merece.
Eu só desejo uma coisa. Que essas pessoas bem intencionadas vão para... onde quiserem, desde que seja bem longe de mim.

domingo, 26 de abril de 2015

Trilha astral

Hoje recebi o meu Mapa Natal e, quando comecei a ler, não conseguia parar de rir, tamanha a minha incredulidade. Sim, era e ali, sem tirar nem por. Mentira, umas duas coisinhas não foram assim, milimetricamente perfeitas, mas todo o restante era toda eu.
Temperamento, iniciativa, competência, foco, carência emocional, senso de integridade, justiça e dever, agressividade. Essas palavras lembram alguém? Pois é. E tem muito mais. Detalhes que parecem contar alguma história que se passou comigo. Coisas sobre as quais falei dias atrás.
E a tendência de problemas no joelho?? Joelho, gente, quer um mais problemático que o meu? Mentira, tem piores, mas o meu é bem bichado, hein?
Daí fiquei me questionando o quanto o Mapa Natal nos determina. Pergunta estilo Gabriela. Eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou morrer assim? Eu sou assim porque os astros disseram ou sou assim porque eu acho que os astros disseram?
Quando meu mapa astral diz que posso ser agressiva, briguenta e irritante, ou que eu guardo rancores por tempo suficiente para me fazer mal, o quanto disso é modificável? Quanto há de ingerência minha nessas características astrologicamente inatas?
O quanto há de imutável quando leio que sou controladora e que me sobrecarrego e, na ânsia de chegar aonde quero, exijo mais de mim do que dos outros, inclusive buscando o reconhecimento por isso? Eu posso um dia passar a ser alguém paciente, que divide tarefas e responsabilidades, e que não se importa se as pessoas são gratas ou não pelo que fiz? 
A perfeição poderá não ser um valor supremo em minha vida?
Uma das frases que mais me chamou a atenção em todo o mapa foi essa: "Você poderá se sentir mal compreendida e que não consegue
harmonizar quem você se esforça para ser e quem as pessoas vêem.
Não é por falta de esforço, tente não se cobrar tanto".
Só para você ter uma ideia, eu falei sobre isso aqui, aqui e aqui. Coincidência? Será mesmo?
E para terminar, algo que venho trabalhando há anos na terapia. Vou anotar para não esquecer.
“Na vida existem coisas além do meu controle”.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Labirinto

Eu me desdobro, me dobro, retorço minhas convicções, amasso os meus conceitos para poder seguir caminhando.
Viro, desviro e me multiplico. Fraciono-se em mil, todos pedaços, partes inteiras de uma realidade pulverizada.
Conto minutos e horas. Dias calculados por produtividade. Amontoados de coisas deixadas de lado. Deixo-me de lado. À minha frente, metem-se as metas, intrometem-se as estatísticas.
Botões, cliques, fluxos e rotinas, elementos de uma vida vista através de uma tela fria.
Brinco com a minha condição. E me condicionamos a aceitar que a realidade não vai muito mais além. Restrinjo meus quereres a pouco mais do que o mínimo. Uma fresta de sol. Minutos sem pensar em nada. Um dia sem que a cobrança me pese nos ombros. E nas feições.
Tento, em vão, convencer a mim mesma de que é uma fase, que tem data para acabar, que é a última vez. Como um labirinto, busco saídas que se revelam ilusórias, e volto ao mesmíssimo ponto do início. 
Mas se a saída não se avizinha, que eu faça do embaraço de caminhos a minha morada. Nesse enredo de fazer e desfazer, teço a teia de uma história diferente, sonhada e desejada. Cada passo descompassado, descompensado e arrastado compõe a estampa dessa busca. Rabisco aqui e ali, risco caminhos já feitos, mas ignoro os sinais e sigo por eles. De novo, de novo e de novo. Os percursos já traçados se travestem de inédito, engabelando meus sentidos, tornando confusas minhas certezas.
Brincando de me perder, escapar já não importa. Desprezo a passagem escancarada. Encontro-me em meio à desorientação. E já não sei andejar em linha reta. Olho para o céu e sinto que não preciso de mais nada.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Cânions do São Francisco muito além do óbvio

Viajar para conhecer os Cânions do São Francisco é praticamente uma obrigação. É daquele tipo de viagem que não se pode deixar de fazer. Ainda mais para quem é nordestino. 
Mas existem formas e formas de se cumprir esse roteiro. Algumas informações estão super difundidas na rede. Basta dar uma olhada no Google. Outras nem tanto. É sobre elas que vou falar.
A primeira é: ficar em Canindé do São Francisco não tem a menor graça e não é necessário. É uma cidade super comum, sem nenhum atrativo por si só. A única coisa relevante é que é de um restaurante famosinho de lá que saem os catamarãs para os passeios.
Qual a opção? Ficar em Piranhas. A cidade é super preservada em sua parte tombada, com casinhas coloridas e construções históricas. Existem muitas opções de pousada, muitas além das que estão no Booking.com. Ou seja, vale a pena dar uma boa pesquisada. Sugiro que se pergunte como é o acesso para a pousada, se tem estacionamento e se tem wi-fi. Muitas estão localizadas em morros e somente se chega após encarar uma escadaria ou uma ladeira. Para quem tem criança pequena ou dificuldade de locomoção pode ser um problema. Não custa nada perguntar também se o quarto tem vista para o rio.

Comer em Piranhas é bastante complicado para quem tem alguma restrição, principalmente na baixa temporada e durante a semana. Muitos restaurantes fechados, alguns abrem apenas para almoço e outros apenas para jantar. Não há qualquer lógica. Vários estabelecimentos somente aceitam dinheiro. Ou, se aceitam cartão, a internet pode ter caído e o cartão não passar. Vá prevenido. Há agências da Caixa, Banco do Brasil e Bradesco.
Quanto à comida em si, muita carne do sol, aipim (macaxeira), pirão de leite... Muito peixe frito. Tudo muito gorduroso. Os restaurantes mais famosos são o Flor de Cactus e a Cachaçaria Altemar Dutra. Desconfio que são os mais famosos porque estão sempre abertos. A comida é bem mais ou menos. A Cachaçaria também é pizzaria e sushi bar. O Flor de Cactus tem uma vista maravilhosa, fica ao lado do Mirante Secular. O atendimento, em todos os lugares, deixa a desejar.
A cidade não conta com um lugar legal onde se possa tomar um café da tarde, por exemplo, comer uma tapioca, bolo, cuscuz... 
Os restaurantes que são ponto de partida e de chegada dos catamarãs (Angicos, Eco Parque e Karranca's) também são bem meia boca. Vale apenas pela praticidade. O preço segue essa linha.
Quanto aos passeios, três dias é suficiente para cumprir o roteiro, digamos, obrigatório: os Cânions do Xingó, a grota do Angico, os museus e a Hidrelétrica. Ainda dá para curtir uma prainha na beira do rio, em Piranhas mesmo ou já em Canindé.
O passeio para o Xingó, quando feito por catamarã, tem horário fixo de saída, por conta das excursões que vêm de Aracaju. É super fácil comprar o voucher. 
Prepare-se, no entanto, para 2h de navegação (ida e volta) e apenas 1h nos cânions propriamente dito. Além disso, se for durante o final de semana, feriado ou alta estação, o barco vai lotado. A trilha sonora também é sofrível. Arrocha, sofrência e forrós de procedência duvidosa. 
Uma opção muito interessante é fretar um barquinho. A diferença é bem pouca, com a vantagem de você controlar o horário. Pode sair mais cedo, pegar a piscina do cânion bem mais vazia, fazer suas fotos com tranquilidade e ficar até a hora que cansar. Alguns exigem lotação mínima no barquinho, outros não.

O passeio para a Grota do Angico, que é o local onde Lampião foi morto, também é feito de catamarã, que sai de Piranhas. O barco para no Angicos ou no Eco Parque. A trilha do Angicos tem cerca de 800m. A do Eco Parque é mais longa, 1.600m. Deve-se pagar uma taxa de R$5,00. Os restaurantes tem uma boa estrutura para os visitantes aproveitarem o banho no rio ou para relaxar nas redes, futtons e espreguiçadeiras. Para a trilha, não custa lembrar: tênis é o ideal, chapéu ou boné é fundamental e água e protetor solar são imprescindíveis.  
Também este passeio pode ser feito com a contratação do barquinho, com a vantagem de poder ir direto para o povoado de Entremontes, famoso por seus bordados. Quando se vai de catamarã, tem de dar sorte para que haja um barqueiro disponível no restaurante.

Quanto aos museus, são dois: o Museu do Sertão e o Museu de Arqueologia do Xingó. São pequenos, mas vale a visita. E preciso estar atento aos dias e horários de funcionamento.
O passeio para a Hidrelétrica também é bacana. O guia explica todo o processo de construção e muita coisa do funcionamento atual. Custa R$40,00 por veículo. É recomendado utilizar sapato fechado.
Agora, se você quer algo mais, se quer conhecer algo que está meio fora do circuito e que não é indicado por nenhum guia, eu conto sobre o pulo do gato agora.

O point se chama Eco Fazenda Mundo Novo. Fica a 32km de Canindé e foi cenário da minissérie Amores Roubados. O lugar é cheio de atrações. São sítios arqueológicos, pinturas rupestres, trilha do cangaço, por onde passou Lampião, além de belas formações rochosas e um espetáculo da caatinga.
O local é também um hotel que conta com alguns chalés, cujo número de hóspedes é variável. A diária inclui todas as refeições. Almoçamos por lá e foi a melhor comida da viagem.
O dono, seu Augusto, é uma atração à parte. Ele que conduz os visitantes nas trilhas, explicando sobre as plantas, as rochas e a história do lugar.
Há também um deck para banho no rio e um barco que, adivinhem, pode levar para os passeios no Cânion e na Grota do Angico. 






Espero que meu relato possa ajudar quem vai viajar para esse paraíso incrustado na Caatinga. Deixo aqui alguns contatos que peguei por lá.

Eco Fazenda Mundo Novo
(79) 9804-0673 9606-0609
augusto@ecofazendamundonovo.com.br

Roberto (locação de barco)
(82) 8803-8463

José Carlos Turismo (locação de barco)
(82) 8105-2762
(82) 8728-5158

Nito (locação de barco)
(82) 8881-0125

Guia turístico: Valdivino. Pode-se procurar por ele no Centro de Visitantes da Hidrelétrica ou no Museu do Sertão.

sábado, 21 de março de 2015

O que me move

Às vezes, em alguns de meus muitos momentos de tempestade mental, me questiono como escolho aquelas coisas às quais vou me dedicar. Como decido investir meu tempo e minha energia em algo? Quais as molas que me impulsionam? O que me atiça, o que me motiva?
Para ser bem sincera, não sei. Porque muitas vezes aquilo que me empolga é algo completamente banal para a maioria. Ou o que me revolta, e que me faz tomar uma atitude, fazer algo, tentar alguma coisa, não enseja o mesmo tipo de reação de outras pessoas.
E aí eu concluo que sou uma pessoa deveras estranha. Vim programada com padrões que não correspondem ao standard da sociedade. E isso me faz criar expectativas e sofrer decepções além da conta. Quando me empolgo, mergulho, me jogo, entrego-me. Faço isso de forma natural, espontânea. Mas dificilmente encontro correspondência. O resultado? Quase sempre um cataploft fenomenal.
E aí fica a dúvida existencial: continuo a me deixar tomar por esses arroubos idealistas, ainda que isso signifique tombos pelo caminho? Ou escolho melhor as minhas batalhas para que elas encontrem reflexo nas pessoas que me rodeiam? 
E a maior dúvida de todas: tudo isso faz diferença?